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Cerejas doces: nutrição, utilidade no dia a dia e o que mostra a investigação

Cerejas doces vermelho-escuras numa taça de cerâmica, com folhas verdes e meia cereja que mostra o caroço

Introdução

As cerejas doces acrescentam fibra, vitamina C e sabor às refeições. Este guia identifica o fruto, explica como escolhê-lo e prepará-lo, o que os estudos em pessoas sobre inflamação, gota e sono realmente avaliaram e quando as porções, as alergias ou os produtos concentrados exigem atenção adicional.

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De que cereja se trata?

A cereja doce é o fruto de Prunus avium L., uma árvore da família das rosáceas. A parte comestível é a pele e a polpa; o caroço duro envolve uma semente que não se come. As variedades diferem em firmeza, doçura e cor, desde amarelo ou amarelo-avermelhado até vermelho muito escuro. Uma cor escura, por si só, não identifica a espécie nem garante maiores benefícios para a saúde. Bing é uma variedade cultivada, não outra espécie. [1]

As cerejas doces e as cerejas ácidas ou ginjas, Prunus cerasus, são espécies diferentes. A expressão «sumo de cereja» num rótulo pode designar qualquer uma delas, uma mistura ou um concentrado. Os resultados relativos a um sumo específico não se aplicam automaticamente a uma taça de cerejas doces. Designações como «cerejeira silvestre» também podem referir-se a plantas diferentes consoante o local; o nome científico é útil para precisar a identidade. [1] [2]

O que uma porção fornece

A Universidade Purdue apresenta os seguintes valores aproximados para 138 g de parte comestível de cerejas doces cruas, o rendimento de uma chávena medida com os caroços ainda presentes. Os caroços não entram no peso comestível. A variedade e a maturação podem originar alguma variação. [2]

Componente Quantidade nesta porção comestível de 138 g
Energia 87 kcal
Hidratos de carbono 22 g
Açúcares totais 18 g
Fibra 3 g
Vitamina C 10 mg
Proteína 1 g

São contributos úteis, mas não uma refeição completa: a fibra acrescenta-se à ingestão diária e ajuda o funcionamento intestinal normal, enquanto a vitamina C participa na manutenção normal dos tecidos. O fruto fornece doçura mantendo a sua estrutura comestível. Juntar cerejas descaroçadas a iogurte natural, aveia ou salada permite variar as refeições e utilizar menos açúcar adicionado nessa preparação. Isto não significa que as cerejas, isoladamente, provoquem perda de peso ou tratem a obstipação. [2] [13]

As cerejas vermelhas contêm pigmentos vegetais chamados antocianinas, além de outros polifenóis. A sua presença explica o interesse científico pelo fruto; atividade antioxidante medida em laboratório não demonstra prevenção de cancro ou doença cardiovascular em pessoas. Os estudos humanos apresentados abaixo dizem respeito a resultados específicos, não a um efeito geral de «desintoxicação». [3]

Escolher, preparar e conservar

Procure frutos firmes, carnudos e intactos, com pedúnculos verdes e frescos quando ainda estiverem presos. A cor deve corresponder à variedade; cerejas amarelas não são necessariamente verdes. Rejeite frutos com bolor ou a perder líquido. Guarde as cerejas por lavar no frigorífico, num recipiente pouco fundo para reduzir as pisaduras, e planeie consumi-las em 3–5 dias. Passe-as por água corrente fresca imediatamente antes de as utilizar e mantenha-as afastadas da carne crua e dos seus líquidos. [2]

Retire os caroços antes de cozinhar ou triturar. Para utilização posterior, lave, descaroce e congele porções; o fruto congelado sem adições pode ser cozinhado ou descongelado para acompanhar iogurte. Uma taça pequena é uma porção alimentar, não uma dose medicinal, e pode ser ajustada ao apetite e à refeição. Pese a parte comestível quando precisar de contar os hidratos de carbono com precisão. [2] [13]

Fruto inteiro, sumo, cerejas desidratadas, compota e extratos não são equivalentes. O sumo fornece habitualmente muito menos fibra, enquanto a secagem concentra mais fruto e açúcar num volume menor. Compotas e cerejas em conserva podem conter quantidades consideráveis de açúcar adicionado. Verifique a lista de ingredientes, a porção e se a espécie está identificada. Um pó pode ser fruto inteiro seco ou um extrato de composição diferente; nem o nome nem a indicação «natural» demonstram um benefício clínico. [2] [13]

Diz-se… mas o que mostram os dados?

«As cerejas doces tratam a inflamação e previnem doenças crónicas.»

Veredicto: resultados preliminares em biomarcadores, sem tratamento de doença demonstrado. Kelley e colaboradores estudaram 18 adultos entre os 45 e os 61 anos que comeram 280 g de cerejas Bing por dia durante 28 dias. Vários marcadores sanguíneos alteraram-se, incluindo uma diminuição de cerca de 20% da proteína C reativa em relação ao início. Contudo, não havia um grupo de controlo paralelo e o estudo não foi aleatorizado nem realizado com ocultação. A maioria dos 89 marcadores não apresentou alterações mensuráveis: 67 permaneceram iguais e 13 estavam abaixo do limite de deteção. [3]

Estes resultados ajudam a identificar perguntas para novas investigações. Não mostram melhoria da artrite de doentes, prevenção de enfartes ou possibilidade de substituir tratamento anti-inflamatório. Os 280 g correspondiam à intervenção estudada, não a uma recomendação terapêutica estabelecida. A amostra pequena e o grande número de marcadores também tornam importante uma confirmação independente. [3]

«As cerejas baixam o ácido úrico, por isso podem substituir os medicamentos para a gota.»

Veredicto: alguns sinais em pessoas, mas sem fundamento para substituir a medicação. No estudo de Jacob e colaboradores, 10 mulheres saudáveis entre os 22 e os 40 anos comeram 280 g de cerejas Bing descaroçadas numa única ocasião, após jejum noturno. O urato no sangue era mais baixo cinco horas depois do que antes da ingestão. Foi uma experiência fisiológica breve em pessoas sem gota, não um ensaio a demonstrar menos crises ou controlo prolongado do urato. [4]

Zhang e colaboradores acompanharam 633 pessoas com gota num estudo observacional. Para cada pessoa, compararam o consumo de cerejas nos dois dias anteriores às crises com o consumo em períodos de controlo. A ingestão de cerejas associou-se a menores probabilidades de crise, com um odds ratio ajustado de 0,65. O consumo declarado pelos participantes, os possíveis fatores de confundimento e o desenho não aleatorizado impedem uma conclusão causal; este resultado também não define um produto de cereja doce ou uma dose eficazes. Mantenha o tratamento para baixar o urato que lhe foi prescrito, incluindo alopurinol quando prescrito. Estes resultados não provam uma interação medicamentosa benéfica nem justificam alterar os medicamentos. [5]

«Uma taça de cerejas doces trata a insónia de forma fiável.»

Veredicto: dados interessantes, mas limitados e com diferenças importantes entre produtos. Um estudo de 2010 de Garrido e colaboradores relatou melhorias em medidas do sono baseadas na atividade após dietas enriquecidas com sete variedades de cereja doce do vale do Jerte, em adultos de meia-idade e idosos. O resumo acessível não dá pormenores suficientes para estabelecer uma quantidade de utilização doméstica ou um efeito terapêutico fiável. [6]

Um estudo posterior, aleatorizado e cruzado, do mesmo grupo envolveu 30 adultos saudáveis de três grupos etários. Comparou um produto de cereja doce com placebo durante períodos de tratamento de cinco dias. Cada porção de 27,85 g, tomada duas vezes por dia, continha fruto liofilizado equivalente a cerca de 141 g de cerejas frescas, além de maltodextrina e vitamina C adicionada. Várias medidas do sono melhoraram. A curta duração, os grupos etários pequenos e a formulação mista limitam a aplicação ao fruto simples ou à insónia diagnosticada. [7]

Outro ensaio frequentemente citado, de Howatson e colaboradores, comparou concentrado de cereja ácida Montmorency, Prunus cerasus, com placebo em 20 voluntários durante sete dias. Algumas medidas do sono melhoraram, mas não se tratava de um ensaio com cerejas doces. Nenhum destes estudos estabelece que um produto de cereja seja equivalente a um medicamento de melatonina. Problemas persistentes do sono merecem avaliação em vez de aumentar progressivamente a ingestão de fruta ou concentrados. [8]

«O açúcar é natural, portanto as cerejas são ilimitadas na diabetes.»

Veredicto: o fruto nutritivo pode integrar a alimentação, mas os hidratos de carbono continuam a contar. A porção de referência contém cerca de 22 g de hidratos de carbono, incluindo os açúcares naturais. As orientações da Universidade do Maine para planear refeições incluem as cerejas entre os frutos que se podem consumir em porções numa alimentação para a diabetes. Escolha fruto inteiro quando for prático, contabilize a quantidade e o resto da refeição e siga o plano de monitorização da glicose já acordado para os seus cuidados. É mais fácil ingerir grandes quantidades de hidratos de carbono através de sumos ou frutos desidratados açucarados. As cerejas não são um tratamento para baixar a glicemia. [2] [13]

Precauções importantes no dia a dia

Digestão sensível. A Universidade Monash identifica as cerejas como uma fonte de sorbitol e de frutose em excesso, hidratos de carbono fermentáveis que podem causar distensão abdominal, desconforto ou fezes moles em pessoas suscetíveis, sobretudo com porções maiores. Estes sintomas não provam uma «limpeza» do organismo. Na síndrome do intestino irritável, importam a tolerância e a porção; isso não implica excluir rigorosamente todos os frutos a longo prazo. [9]

Alergia. Cerejas cruas podem provocar comichão ou formigueiro na boca por reatividade cruzada entre pólenes e alimentos, incluindo com o pólen de bétula. Outras alergias à cereja podem ser mais graves. Cozinhar pode ajudar em algumas reações relacionadas com pólenes, mas estudos sobre a proteína transportadora de lípidos da cereja Pru av 3 mostram resistência ao calor: cerejas cozinhadas não são automaticamente seguras. Evite um alimento que reconhecidamente desencadeia alergia; dificuldade respiratória, inchaço da garganta ou sensação de desmaio exigem ajuda urgente. [10] [11]

Caroços, crianças e outras partes da planta. Retire os caroços e corte as cerejas em pedaços pequenos adequados à capacidade da criança para comer; cerejas inteiras continuam a apresentar risco de engasgamento mesmo sem caroço. Não mastigue nem triture as sementes, particularmente numa liquidificadora, porque contêm compostos cianogénicos. Engolir acidentalmente um caroço intacto é diferente de moer sementes, mas os caroços não devem ser ingeridos deliberadamente. Folhas e pés não substituem a polpa comestível, e a investigação sobre o fruto não estabelece a sua segurança em infusões ou remédios. [12] [1]

Doença renal, medicamentos, gravidez e amamentação. Uma restrição prescrita de potássio pode exigir ajustar a porção; a doença renal não implica uma proibição universal de cerejas. A orientação da Universidade da Florida salienta o tamanho das porções e a gestão individual do potássio. Os estudos alimentares analisados não estabelecem uma interação clinicamente importante entre uma porção habitual de fruto e um medicamento específico, mas também não provam que os suplementos concentrados estejam isentos de interações. Durante a gravidez ou a amamentação, use porções alimentares habituais, lave bem o fruto e siga as restrições dietéticas individuais; os estudos citados não estabelecem a segurança de extratos em doses elevadas nestes grupos. Não utilize extratos ou preparações de folhas por iniciativa própria com base em estudos sobre o fruto. [14] [3] [7]

Conclusão

A cereja doce é sobretudo útil como um fruto inteiro saboroso que fornece fibra e vitamina C a refeições variadas. Vale a pena acompanhar a investigação mantendo claras a espécie, a preparação e o resultado estudado. Escolha uma porção bem tolerada, manuseie o fruto com segurança, retire os caroços e respeite alergias ou limites dietéticos prescritos; as promessas terapêuticas devem acompanhar a força das provas.

Nota importante

Retire os caroços antes de triturar; não mastigue nem moa as sementes no seu interior e não substitua o fruto comestível por folhas ou pés de cereja. Para crianças pequenas, retire todos os caroços e corte a fruta em pedaços pequenos adequados à idade e à capacidade de comer; cerejas inteiras podem provocar engasgamento. Evite cerejas se tiver uma alergia conhecida. Dificuldade em respirar, inchaço da garganta ou sensação de desmaio depois de as comer exigem ajuda médica urgente. Ajuste as porções à contagem de hidratos de carbono, à sensibilidade digestiva ou a uma restrição prescrita de potássio. Os produtos de cereja não substituem os medicamentos para a gota nem o tratamento de problemas persistentes do sono.

Este artigo é educativo e não substitui aconselhamento de um profissional de saúde qualificado.

Fontes e referências

  1. Prunus avium (Sweet Cherry) · Ler fonte — North Carolina State University Extension
  2. Cherry — FoodLink · Ler fonte — Purdue University Extension
  3. Sweet bing cherries lower circulating concentrations of markers for chronic inflammatory diseases in healthy humans · Ler fonte — USDA Agricultural Research Service, Western Human Nutrition Research Center
  4. Consumption of cherries lowers plasma urate in healthy women · Ler fonte — The Journal of Nutrition
  5. Cherry consumption and decreased risk of recurrent gout attacks · Ler fonte — Arthritis & Rheumatism
  6. Jerte Valley Cherry-Enriched Diets Improve Nocturnal Rest and Increase 6-Sulfatoxymelatonin and Total Antioxidant Capacity in the Urine of Middle-Aged and Elderly Humans · Ler fonte — The Journals of Gerontology: Series A
  7. A jerte valley cherry product provides beneficial effects on sleep quality. Influence on aging · Ler fonte — The Journal of Nutrition, Health & Aging
  8. Effect of tart cherry juice (Prunus cerasus) on melatonin levels and enhanced sleep quality · Ler fonte — European Journal of Nutrition
  9. Where FODMAPs are found in foods · Ler fonte — Monash University
  10. Pollen-food allergy syndrome: tree, grass and weed pollens · Ler fonte — University of Rochester Medical Center, Otolaryngology Associates
  11. Strong allergenicity of Pru av 3, the lipid transfer protein from cherry, is related to high stability against thermal processing and digestion · Ler fonte — Journal of Allergy and Clinical Immunology
  12. Prevent Choking by Avoiding These Foods · Ler fonte — University of Illinois Extension
  13. Bulletin #4363, Dining with Diabetes: Meal Planning Using the Plate Method · Ler fonte — University of Maine Cooperative Extension
  14. Chronic Kidney Disease: Potassium and Your Diet · Ler fonte — University of Florida IFAS Extension